4. BRASIL 22.8.12

1. BRASIL CONFIDENCIAL - "SIGA O DINHEIRO"
2. O CUSTO DA GREVE
3. O DELATOR QUER DINHEIRO
4. COMEA O ESPETCULO DA CAMPANHA MAIS CARA DA HISTRIA
5. A REAO DE GURGEL
6. A MFIA DOS UNIFORMES

1. BRASIL CONFIDENCIAL - "SIGA O DINHEIRO"
por Marta Salomon
So Bernardo do Campo  dos poucos municpios que tero o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva no palanque.  tambm o lder nos repasses de dinheiro da Unio desde o incio da campanha eleitoral. Em pouco mais de um ms, recebeu R$ 19 milhes em verbas federais, sem contar as transferncias obrigatrias de recursos. Candidato  reeleio pelo PT, Luiz Marinho  a aposta de Lula para disputar o governo de So Paulo em 2014. Curiosamente, o ministro da Sade, Alexandre Padilha, titular da pasta que mais engordou o caixa de So Bernardo, tambm est no preo para se lanar candidato pelo PT ao governo em dois anos.


2. O CUSTO DA GREVE

Paralisao de professores de 57 universidades dura trs meses e perda aos cofres pblicos j soma R$ 3,7 milhes
Adriana Nicacio

 IRREDUTVEIS - Professores reivindicam 30% a mais do que foi oferecido pelo governo

Entre as vrias categorias de servidores pblicos em greve, no primeiro teste da relao da presidenta Dilma Rousseff com os movimentos sindicais, uma chama a ateno pela dificuldade de o governo chegar a um acordo. A paralisao de professores de 57 universidades e trs institutos federais completou trs meses na sexta-feira 17, rachou o movimento, obrigou o governo a apresentar duas propostas diferentes, mas avanou mais uma semana sem um sinal claro de volta s aulas. Embora os prejuzos econmicos neste caso no sejam to facilmente computados, como o que ocorre com o bloqueio de exportaes, causado por outras categorias paradas , o Ministrio da Educao contabiliza perda de R$ 3,7 milhes aos cofres pblicos. O prejuzo  correspondente aos custos para manter as estruturas de ensino sem o devido uso.
 
As perdas poderiam ter sido evitadas. Os professores universitrios foram os primeiros a receber uma proposta de acordo concreta do governo, em meados de julho. Em trs anos, os professores receberiam R$ 3,9 bilhes em reajustes que beneficiariam, sobretudo, os doutores com dedicao exclusiva. Pressionado, o Ministrio do Planejamento apresentou uma segunda proposta dias depois, ao custo de R$ 4,2 bilhes at 2015. E disse, mais uma vez, ter chegado ao limite da negociao. Mas a maioria dos professores rejeitou a proposta do Ministrio do Planejamento. O governo ofereceu um reajuste de 25% no piso, para os prximos trs anos, podendo chegar a 45% para professores com doutorado e dedicao exclusiva em 2015. A Andes quer pelo menos 30% a mais do que o governo oferece. Se aceita, a proposta custaria R$ 10 bilhes aos cofres pblicos nos prximos trs anos. No conheo nenhuma outra categoria que tenha proposta semelhante nesse quadro de crise internacional, avalia o ministro da Educao, Aloizio Mercadante, mais preocupado em garantir a reposio das aulas do que fazer valer o desconto nos salrios dos professores.
 
Independentemente do caminho traado, os efeitos da greve atual ainda sero sentidos pelos prximos trs anos,  semelhana do que ocorreu na ltima grande greve dos professores em 2005. Na ocasio, o ano escolar foi perdido, o calendrio seguinte comeou com atraso e s se normalizou em 2008. Na semana passada, o MEC encaminhou circular cobrando dos conselhos superiores das instituies federais um cronograma de reposio das aulas e das atividades interrompidas, mas os reitores se negaram a elaborar qualquer cronograma antes do fim da greve. Simulaes mostram que o ano letivo de 2012 s acabar em fevereiro do ano seguinte. E 2013 para os alunos das universidades federais s deve comear em abril.
 
H outro tipo de prejuzo imensurvel imposto pela greve: os efeitos avanam para alm dos limites das salas de aula, atingindo as pesquisas e os hospitais-escola. Nos hospitais das universidades do Paran, Gois, Sergipe e Minas Gerais, cirurgias e consultas foram canceladas. Em outros 36 hospitais, a paralisao dos servidores afetou ao menos um tipo de atendimento e a emergncia. A greve arranhou at a imagem das instituies no Exterior. A Universidade de Braslia perdeu 15 posies entre as melhores universidades da Amrica Latina, no ranking Top Universities, que avalia a qualidade das instituies ao redor do mundo. A UnB caiu de 11 para a 25 colocao. O item greve no existe no julgamento, mas j ficou claro para os avaliadores que as paralisaes afetam a qualidade de ensino. No momento, a estratgia do governo  apostar no desgaste do movimento dos professores com a volta ao trabalho dos tcnicos de universidades. Na avaliao do Planalto, a greve dos servidores em geral no avana depois do dia 31 de agosto, prazo final para o envio da proposta de lei do Oramento da Unio ao Congresso, com a formalizao das propostas de reajustes. A data pe um ponto-final definitivo s negociaes. Resta saber o tamanho da conta que a sociedade ter de pagar.


3. O DELATOR QUER DINHEIRO

Ex-militante da ALN que virou colaborador do regime militar e entregou 192 companheiros reivindica uma indenizao de R$ 100 mil
Adriana Nicacio

TRAIO - Delatada por Gilberto Telmo (acima), Maria do Carmo (abaixo) diz que ele  o Cabo Anselmo da ALN

No perodo mais duro da ditadura militar, no incio dos anos 70, os rgos de represso contaram com a colaborao de agentes duplos, infiltrados nas organizaes de esquerda. Ex-militantes que trocaram de lado depois da tortura, esses agentes eram chamados de cachorros. O delegado do Dops, Srgio Paranhos Fleury, se orgulhava da eficincia de seu canil, onde pontificava a figura de Jos Anselmo dos Santos, o lendrio Cabo Anselmo. O comandante do DOI paulista, coronel Carlos Aberto Brilhante Ustra, teve pelo menos uma dezena de cachorros. O capito nio Pimentel Silveira, torturador conhecido como Dr. Ney nos pores do DOI, manteve um canil com 12 agentes. Pois  justamente de um desses antigos grupos de cachorros que parece ter sado Gilberto Telmo Sidney Marques, ex-militante de esquerda que, desde 2008, reivindica uma indenizao de R$ 100 mil por meio da Comisso de Anistia do Ministrio da Justia.
 
Documentos confidenciais do Centro de Inteligncia do Exrcito consultados por ISTO mostram Gilberto Telmo como um colaborador eficiente. Ele fazia parte da Ao Libertadora Nacional (ALN), organizao criada por Carlos Marighella, quando foi preso em janeiro de 1972 com um revlver 38 na cintura e identidade falsa. Um ms depois, prestava depoimento no DOI-Codi delatando nada menos de 192 pessoas. Ele  o Cabo Anselmo da ALN, acusa a auditora fiscal aposentada Maria do Carmo Serra Azul, uma das dezenas de militantes presas graas ao dedo indicador de Gilberto Telmo. Ele no foi um militante que fraquejou sob tortura, diz Maria do Carmo. Foi um colaborador que passou para o outro lado. Ela tinha 20 anos e era conhecida como Cacau quando foi presa em Fortaleza e entregue ao grupo de tortura comandado pelo delegado Fleury. Maria do Carmo conta que nas instalaes da 10 Regio Militar, numa das sesses de afogamento, Fleury mandou que lhe tirassem o capuz. Foi chamado, ento, Gilberto Telmo, que tentou convenc-la a colaborar com os militares. Dias depois, outro torturador, Otvio Gonalves Jr., chefe do Comando de Caa aos Comunistas (CCC), teria confirmado para Maria do Carmo que Gilberto Telmo era o delator convidado deles.
 
O atual secretrio de Desenvolvimento Agrrio de Tabuleiro do Norte (CE), Jernimo de Oliveira, tambm ex-militante da ALN, confirma as acusaes de Maria do Carmo. Este sujeito contava tudo, no exatamente sob tortura, diz ele. Gilberto Telmo hoje  um professor aposentado e contesta os velhos companheiros. Passei mais de um ms no DOI-Codi submetido  tortura fsica e psicolgica, alega. Ele diz que pretende doar o dinheiro que cobra da Unio ao Movimento Tortura Nunca Mais.


4. COMEA O ESPETCULO DA CAMPANHA MAIS CARA DA HISTRIA

O custo do horrio eleitoral na tev, que se inicia tera-feira, vai passar de R$ 3,5 bilhes. E  com esses gastos que os candidatos esperam reverter votos ou consolidar lideranas 
Izabelle Torres 

ELES APOSTAM TUDO NA TEV - Eduardo Paes, no Rio; Fernando Haddad, em So Paulo; e Manuela D'vila, Porto Alegre, definem estratgias na reta final
 
No prximo dia 21, a propaganda eleitoral gratuita chegar s casas dos brasileiros. Essas aparies compulsrias em horrio nobre so a esperana para os candidatos que querem reverter o jogo desfavorvel ou para aqueles interessados em consolidar posies de liderana. Por isso, a produo desses programas ocupa o primeiro lugar na prioridade de despesas das campanhas. De acordo com as planilhas elaboradas por partidos polticos e comits financeiros, a soma de gastos com produo e edio dessas peas deve passar de R$ 3,5 bilhes. O valor representa 10% dos R$ 34 bilhes que os candidatos de todo o Pas anunciaram despender, e transformam o pleito de outubro no mais caro da histria. Tanto investimento se deve  capacidade de essa exposio desenhar de forma decisiva o desfecho das eleies. Em 2008, por exemplo, em apenas trs capitais o vencedor foi o mesmo que liderava as pesquisas antes da campanha ganhar espao na tev. A realidade tem mostrado que o programa eleitoral  o maior responsvel pelos resultados das eleies. De longe, esse  o mais importante instrumento para quem disputa um cargo eletivo, avalia Marcos Coimbra, socilogo e presidente do Instituto Vox Populi.
 
Por isso, o horrio eleitoral gratuito mobilizar as grandes agncias de publicidade e desafiar os principais marqueteiros do Pas que cobram, em mdia, R$ 22 milhes para transformar um nico candidato em produto atraente aos olhos dos eleitores. Conforme apurou ISTO, as peas que estreiam na tera-feira 21 vo se basear em antigas estratgias, mas que ao longo dos anos se mostraram eficientes para contrapor os adversrios. Na capital paulista, onde a previso de despesas dos candidatos com a propaganda eleitoral passa de R$ 150 milhes, Fernando Haddad (PT) vai optar pela velha frmula de imagem de um homem de famlia, bem-casado e pai exemplar. Durante pouco mais de sete minutos, o petista vai mostrar porta-retratos, filmagens em casa e imagens do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. O comit de campanha de Haddad at reservou parte do oramento para montar um estdio especial para o ex-presidente. Afinal, Lula  considerado um dos principais cabos eleitorais desta campanha. O marqueteiro do petista  Joo Santana, o mago das transformaes, responsvel pela repaginao da presidenta Dilma na eleio presidencial de 2010.
 
Sob a orientao de Santana, Haddad quer aproveitar as vantagens de ser um estreante para marcar posio contra Jos Serra (PSDB), que durante sete minutos e 44 segundos vai ressaltar sua ampla experincia como gestor e poltico. J o apresentador Celso Russomano (PRB), adaptado s cmeras, vai tentar parecer ntimo dos paulistanos durante os dois minutos dirios que possui no horrio eleitoral gratuito. Para Gabriel Chalita (PMDB), o cenrio  um pouco mais difcil. Ele precisar gastar boa parte dos quatro primeiros dias se apresentando aos eleitores, porque o desconhecimento perante  populao  um de seus pontos fracos. Chalita dispor de quatro minutos na tev.

CABO ELEITORAL - O candidato a prefeito de So Paulo, Fernando Haddad, reservou estdio especial para gravao de Lula
 
A importncia do horrio eleitoral poder ficar ainda mais clara em dezenas de campanhas pelo Pas onde o cenrio  incerto e a presena de caciques polticos como padrinhos dos candidatos ser decisiva. Em Belo Horizonte, o uso da imagem da presidenta Dilma  a carta na manga dos petistas para fazer deslanchar a candidatura de Patrus Ananias. O programa comandado tambm por Joo Santana vai lembrar que ele  o padrinho do Bolsa Famlia e um dos poucos candidatos a contar com o empenho pessoal da presidenta para eleg-lo. O obstculo dos petistas ser um plano alternativo dos coordenadores da campanha de Marcio Lacerda (PSB), que prepararam uma fita com um compilado de aparies de petistas, inclusive de Dilma Rousseff, elogiando sua gesto e apoiando a tentativa de reeleio.
 
O espetculo eleitoral na tev  definitivo para garantir uma liderana ou dar nimo a uma virada. O primeiro caso  tpico, por exemplo, da campanha de Eduardo Paes (PMBD)no Rio de Janeiro. Com um alto ndice de aprovao de sua administrao e 49% das intenes de voto, conforme o Ibope, ao prefeito cariosa bastar ressaltar o que j vem sendo feito.  o contrrio do que ocorre com a candidata Manuela Dvila (PCdoB) em Porto Alegre. As pesquisas eleitorais mostram que ela teria 30% dos votos, aproximando-se dos 38% do lder Jos Fortunati (PDT), candidato  reeleio na capital gacha. Como Fortunati ostenta elevado nvel de aprovao na prefeitura, os marqueteiros de Manuela Dvila precisaro provar sob os holofotes da tev que ela pode conseguir como administradora o mesmo destaque que obteve como parlamentar.


5. A REAO DE GURGEL

Sob ataques pesados dos advogados dos rus do mensalo, procurador-geral da Repblica diz que defesa est desesperada e que h provas para condenao
Izabelle Torres

 CONTRA-ATAQUE - Para o procurador Roberto Gurgel, as provas so contundentes
 
Nos ltimos dez dias, o Brasil assistiu aos argumentos e teses apresentados pelos advogados dos rus do mensalo, em uma tentativa de mostrar que o maior escndalo da histria recente do Pas no passou de uma pea de fico inventada pelo Ministrio Pblico Federal. O repertrio da defesa incluiu citaes de poemas, msicas e declaraes que tentam minimizar os crimes cometidos. Poucos argumentos, no entanto, se repetiram tanto quanto os ataques ao procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, responsvel pela denncia. A atuao dos defensores inundou o Supremo Tribunal Federal de adjetivos e por diversas vezes deixou de lado os aspectos jurdicos da ao. Gurgel foi taxado de omisso, inconsequente, desleal, intimidador e, at, incompetente. Ouviu a todos os insultos com um semblante impassvel, quase congelado. Publicamente, ele tem adotado uma posio cautelosa e insistido na tese de que quem representa a acusao est sempre propenso a esse tipo de ofensiva. Nos bastidores, no entanto, o procurador tem reagido com vigor. A pessoas prximas ele disse acreditar que essa conduta  resultado do desespero da defesa, que teve dificuldades de apresentar justificativas e argumentos que desconstrussem a tese de que o mensalo realmente existiu. Temos provas e tenho certeza de que o Supremo far justia que, nesse caso, significa a condenao, diz ele.
 
Em defesa da atuao do Ministrio Pblico, o antecessor Antonio Fernando de Souza, que apresentou a denncia em 2007 e comandou a maior parte das investigaes, disse  ISTO que o repertrio de ataques dos advogados j havia aparecido naquela poca. No sou mais o representante do MP. Mas lembro que, quando me pronunciei pela primeira vez no STF, a ofensiva contra mim foi semelhante, ou at pior, recorda. Penso que quando se perde a serenidade ao falar  porque ficou difcil encontrar bons argumentos, completa ele. Esse comportamento da defesa  o argumento que Gurgel tem usado para minimizar os efeitos nocivos das investidas dos advogados. O procurador adotou como mantra o discurso de que o Ministrio Pblico fez o melhor trabalho possvel e avanou com sucesso nas investigaes iniciadas por seu antecessor.

A reao de Gurgel, ainda que tardia,  um sinal de que a acusao tem bons argumentos para pedir a condenao dos personagens do mensalo. Para ele, o adequado seria no responder aos insultos, para evitar municiar a defesa, que insistiu na m qualidade do seu trabalho e no suposto prazer que ele sentia em acusar. Mas o procurador ficou muito irritado com a insistncia dos advogados dos mensaleiros em atac-lo. Na quinta-feira 16, ele disse a uma ministra do Superior Tribunal de Justia (STJ) que ser criticado por alguns dos mais renomados criminalistas do Pas  uma situao desconcertante e incmoda. Ele reclama especialmente das declaraes de que  omisso e teve dificuldades de produzir provas, o que faria o mensalo ter desfecho semelhante ao do caso Collor. Na ocasio, os ministros entenderam que no ficou comprovada a participao do ento presidente da Repblica nas negociaes articuladas por PC Farias.
 
Gurgel tambm se incomodou com as acusaes de que no foi capaz de avanar nas investigaes comandadas por Antonio Fernando de Souza at 2009, quando ele assumiu o posto. Um subprocurador que trabalhou no processo afirma que esse legado do antecessor  um dos pontos fracos do atual chefe do MP, j que seu trabalho representa menos de 10% das provas contidas na ao. Um dos ministros do Supremo percebeu esse cenrio. Segundo ele, ao longo do processo, a grande maioria das provas que podero servir para possveis condenaes foi obtida antes de 2009. Nessa lista esto laudos periciais sobre o caminho do dinheiro e documentos mostrando que o esquema usou dinheiro pblico por meio do Banco do Brasil.
 
O clima tenso em torno de Gurgel est atrapalhando tambm as relaes dele com os ministros do Supremo. Apesar da prerrogativa de participar do lanche com os integrantes da corte nos intervalos das sesses, o procurador ficou isolado nos ltimos dias e poucos ministros conversaram com ele. Gurgel chega s prximas etapas do julgamento sob a dvida de alguns ministros sobre a qualidade das provas produzidas pelo Ministrio Pblico. A condenao dos rus ser sua chance de mostrar que todos estavam errados. No que depender do relator do processo no STF, Joaquim Barbosa, Gurgel ter seu trabalho reconhecido. Joaquim Barbosa disse na quinta-feira 16 que ficaram caracterizados os crimes de corrupo passiva e lavagem de dinheiro do deputado Joo Paulo Cunha (PT-SP) e de corrupo ativa do publicitrio Marcos Valrio e de seus ex-scios Cristiano Paz e Ramon Hollerbarch. Barbosa tambm enxergou indcios do crime de lavagem de dinheiro contra Joo Paulo Cunha ao enviar a mulher para sacar o dinheiro em uma agncia do Banco Rural. Ciente de que o dinheiro tinha origem ilcita, em crime contra a administrao pblica, o senhor Joo Paulo utilizou de pessoa de sua confiana que no revelaria o saque a terceiros.


6. A MFIA DOS UNIFORMES

Ex-executivo de empresa investigada pela PF, Djalma Silva conta como funciona o esquema de fraudes com a Prefeitura de So Paulo. E diz que o fornecimento dos kits de uniformes envolve pagamento de propina acertada por Alexandre Schneider 
Claudio Dantas Sequeira

"Acertamos 4%. Isso foi negociado pelo Schneider, vice do Serra"

MEDO - Djalma Silva no quer mostrar o rosto porque teme por sua integridade fsica
 
Empresrio de 42 anos, natural de Pindamonhangaba (SP), Djalma S. Silva trabalhou por mais de um ano na Diana Paolucci, empresa investigada pela Polcia Federal e pelo Ministrio Pblico por integrar um cartel de fornecedoras de uniformes para escolas da rede pblica. A Diana Paolucci chegou a ser proibida, por 11 meses, de firmar contratos com a Prefeitura de So Paulo. Com salrio fixo de R$ 10 mil e uma comisso de 30%, Djalma era diretor-comercial da companhia e tinha a tarefa de abrir portas no poder pblico. Foi nesta condio que ele participou de reunies e negociatas que tentavam ampliar a participao da Diana Paolucci no mercado de fornecimento de kits escolares. Agora Djalma est fora da empresa e diz que se desligou por no concordar com os mtodos adotados durante a negociao dos contratos. Na quarta-feira 15, Djalma Silva recebeu a reportagem de ISTO. Em entrevista exclusiva, resolveu escancarar o funcionamento do submundo da mfia dos uniformes em So Paulo, denunciada pela revista em sua ltima edio.
 
De acordo com o empresrio, que pediu para no mostrar o rosto, temendo colocar em risco sua integridade fsica, o esquema no apenas est ativo como envolve o pagamento de propina para integrantes da Prefeitura de So Paulo. O relato compromete o candidato a vice na chapa de Jos Serra  Prefeitura de So Paulo, Alexandre Schneider. Segundo revelou ISTO na reportagem da ltima semana, Schneider deu aval para a atuao da mfia no perodo em que ocupou a Secretaria da Educao. Na entrevista, Djalma foi alm. Disse que o grupo de empresrios estava preocupado com o avano do candidato Celso Russomanno (PRB) nas pesquisas de inteno de voto. J a vitria de Jos Serra seria, segundo ele, a garantia de que o esquema continuar em pleno funcionamento. Acertamos (uma comisso de) 4%. Se o Serra ganhar, voc paga isso; se for o Russomanno, tem que renegociar. A tem que fazer um novo processo. Isso foi negociado pelo Alexandre Schneider, vice do Serra, e Julio Manfredini, disse Djalma.

ENROLADO - Alexandre Schneider, vice de Serra, teria negociado comisso
 
Julio Manfredini  proprietrio da empresa Capricrnio, uma das investigadas pela PF e o MP por formao de cartel. Segundo Djalma, o percentual de 4% foi revelado em reunio no dia 8 de agosto. Nesse dia, os empresrios se reuniram para discutir o impacto da eleio municipal nos negcios do grupo, precisamente a renovao dos contratos de fornecimento de uniformes e material escolar, que somam mais de R$ 140 milhes. O encontro ocorreu no caf de um hotel a poucos metros da Coordenadoria dos Ncleos de Ao Educativa (Conae), rgo responsvel pelas licitaes da secretaria. Quem conduziu a conversa, segundo Silva, foi Eldo Castello Umbelino, dono da Nilcatex, fornecedora de uniformes. Ele contou que vinha de uma reunio anterior com Julio Manfredini e que ele estaria muito preocupado que a vitria de Russomanno atrapalhasse as pretenses do grupo. O bate-papo entre os empresrios foi gravado pelo ex-executivo da Diana Paolucci e encaminhado ao Ministrio Pblico.
 
O empresrio se diz arrependido de ter integrado o esquema, conta que comeou a atuar na rea de licitaes de merenda escolar h quase dez anos e, a partir de 2008, resolveu ampliar sua atuao para outros insumos.  reportagem, Djalma Silva apresentou cpias de denncias protocoladas por seu advogado junto aos gestores pblicos e rgos de controle, alertando sobre as fraudes nos editais e a combinao de preos entre as empresas, antecipando at o resultado de licitaes. Desde ento, diz que vem sofrendo perseguies e ameaas de morte contra si e sua famlia. Um dia desses me enviaram um envelope com a foto do meu filho saindo da escola. Era um recado claro, afirma.

NEGOCIATA - Segundo testemunha, vitria de Serra  garantia de manuteno do esquema
 
Um dos que o teria ameaado seria seu ex-patro, Abelardo Paolucci. Ele disse que vai acabar comigo, que  mais bandido do que eu imagino. Eu gravei tudo, diz. Silva espera assinar nos prximos dias um acordo com o Ministrio Pblico e avalia pedir proteo policial. De fato, o executivo tornou-se uma testemunha-chave. Segundo ele, o esquema foi implementado por Serra ainda no governo do Estado e importado para a Prefeitura paulistana, onde operou desde 2006 pelas mos do secretrio Schneider, que deixou o cargo justamente para concorrer como vice na chapa tucana. Tanto em nvel municipal como no estadual, o esquema seria coordenado pela empresa Capricrnio. De acordo com Djalma Silva, Manfredini, o dono da empresa, mantm relao estreita com Schneider. Ele tem acesso aos editais com antecedncia, faz as alteraes para beneficiar o seu grupo de empresas. Combinam preos e pagam comisses aos polticos, afirma Silva. Esses pagamentos, acrescentou a testemunha, ocorreriam em restaurantes na via Dutra e no escritrio da Capricrnio na avenida Anglica, em Higienpolis.
 
Essas empresas, na semana passada, saram a pblico para rejeitar as denncias publicadas por ISTO. Em informe publicitrio nos jornais de So Paulo, a Diana classificou de inverdicas as informaes. Documentos entregues por Silva ao Ministrio Pblico, porm, mostram o contrrio. So cpias de e-mails e mensagens de celular trocadas com os empresrios e polticos envolvidos no esquema. Esses documentos mostram, por exemplo, a negociata entre o ex-diretor da Diana Paolucci e Ortiz Jnior, que  candidato a prefeito de Taubat pelo PSDB e filho do presidente da Fundao para o Desenvolvimento da Educao (FDE), Jos Bernardo Ortiz.

ACERTO - Ortiz Jnior, candidato a prefeito de Taubat, pediu comisso
 
O rgo  responsvel por todas as licitaes do governo de So Paulo na rea da educao e possui oramento de quase R$ 3 bilhes. Falando em nome do pai e usando sua influncia de cacique tucano, Jnior teria procurado Djalma Silva no ano passado para levantar recursos para sua campanha. Ele queria R$ 7 milhes e pediu 10% do contrato. Consegui 5%, lembra. A oferta de Jnior inclua, segundo Silva, milionrios contratos para fornecimento de mochilas e uniforme escolar. Na semana passada, Manfredini e Schneider foram procurados por ISTO, mas no se pronunciaram at o fechamento desta edio.
